Quando você ver uma situação embarassada com outra pessoa, não julgue tão rápido, procure ver o contexto. Um homem comendo cocô de cachorro, uma prostituta recebendo dinheiro, um enfermeiro matando um paciente, uma mulher fazendo sexo no avião e o namorado matando seu gato podem ser na realidade, um brownie que caiu no chão, um pai dando dinheiro para a filha, um enfemeiro matando uma mosca com um desfribilador, uma mulher apertada para ir no banheiro enrolada com a turbulência e um gato atrapalhado sujo de molho de tomate.
Muitos casais jovens fazem isso: adquirem um cachorro para testar nele seus valores familiares. John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston) Grogan são um casal de repórteres com cerca de vinte e poucos anos, recém casados, cujo cão de caça labrador é adquirido porque o marido ainda não se considera pronto para ser pai. Ele, então, surpreende a mulher com um cachorrinho como presente de aniversário, esperando que isso lhe dê algum tempo para preparar-se melhor. E a aventura começa.
Começamos a ter uma idéia do que está por vir, a partir de uma cena no início do filme que também é mostrada na chamada: um menino brinca com seu cachorrinho em um campo enquanto uma voz oculta diz: “Nada como a experiência de criar o seu primeiro filhote.” Mas esta não é uma referência a Marley ou a “Eu”, como diz o título. Logo aquele sonho ideal é esquecido quando Marley mastiga a metade do cinto de segurança do carro durante o caminho de volta da fazenda de onde eles trazem o filhote. Então, Marley pula sobre o menino e seu cachorro, enquanto John corre atrás dele tentando, desesperadamente, evitar que Marley coma a ambos e destrua o gramado daquela linda cena bucólica. “Este é Marley, o pior cachorro do mundo”. Então, a voz constrangida do dono do cachorro acrescenta: “Ou era o que eu pensava”.
A maior parte do filme se concentra na história do “pior cachorro do mundo”. Marley freqüentemente pega objetos da casa com a sua boca travessa – um sutiã, um colar, uma coxa de peru – e foge pela porta da frente, com seus donos o perseguindo. Come travesseiros. Come o assoalho. Come varais com roupas. Só não come comida de cachorro três vezes ao dia. Ele é expulso da escola de adestramento (Kathleen Turner interpreta uma instrutora engraçada, que tem o cabelo frizado e uma pochete). Ele aterroriza a babá enquanto os Grogans fazem uma viagem à Irlanda. Marley é, basicamente, um grande, peludo e mal comportado monte de energia.
No entanto, Marley também ajuda John quando este consegue um trabalho temporário como colunista de um jornal. Como um repórter aspirante, John fica, a princípio, desapontado com o “belo” emprego. Sebastian (Eric Dane), um repórter amigo seu, é enviado à Colúmbia para cobrir uma reportagem sobre tráfico de drogas, enquanto John escreve historias sobre o seu cachorrinho rebelde. Mas então, John percebe – com a ajuda de seu divertido e mal humorado editor Arnie (Alan Arkin) – que ele é, realmente, um ótimo colunista.
Por fim, os Grogans decidem ter filhos. Será que eles poderiam ter mais dificuldades do que tiveram com Marley? Enquanto John e Jenny vivem os primeiros anos com as crianças, logo percebem que realmente podem ter mais dificuldades. Ou talvez sejam dificuldades diferentes. Vemos esse casal engraçado e adorável ficando exausto, enquanto Jenny luta para se equilibrar entre o trabalho e a família, John fica cada vez mais insatisfeito com seu trabalho, e o casamento deles é colocado em segundo plano. E Marley consegue comer, babar e fazer cocô em meio a todo esse drama – aumentando e aliviando, alternadamente, a tensão.
Muitas pessoas vão se identificar com esta história familiar intensa e engraçada, do best sellerMarley and Me, inspirada na vida do colunista John Grogan. (Os verdadeiros John e Jenny participam do filme numa das cenas da escola de adestramento.) O filme permanece fiel ao livro e tem o capricho habitual (bom desenvolvimento, personagens convincentes) e as desvantagens (um ritmo acelerado ao tentar contar páginas e páginas de histórias em duas horas) de transformar um livro em um filme para o cinema.
Mesmo que Owen Wilson não se pareça muito com um grande escritor, ele mostra profundidade e sutileza, o que raramente vemos nele nas telas. (Talvez ele tenha decidido deixar que o cachorro seja “o tolo da vez”). Jenifer Aniston é a habitual maravilhosa atriz principal, com momentos engraçados e românticos e outros de explosões neuróticas. Wilson e Aniston retratam personagens agradáveis e um casal adorável, com uma química boa e convincente. Se existe alguma crítica em relação ao desempenho deles, é que eles são bonitos e simpáticos demais. E não parecem ter os dez anos a mais mostrados no filme.
Mas, assim, a crítica “muito boa” pode ser aplicada ao filme inteiro. Há um tipo de “brilho moderno” de Normal Rockwell sobre a produção inteira, mesmo quando os Grogan estão gritando um com o outro ou Marley está “devolvendo” o colar de Jenny que ele havia comido. Um pouco mais de realismo (bem, talvez nem tanto, como no incidente com o colar) teria sido ótimo. Especialmente porque há alguns momentos de confusão mostrados no filme. Mas esta não é apenas a história de uma família e da criação de um cachorro louco. Também são retratados anseios, ressentimentos, perdas e lutas que elevam o filme acima de uma comédia típica.
E, deliciosamente, este é um filme abertamente pró-família. Sim, nós vemos John e Jenny como um casal que briga, mas que também parece crescer através dessas situações. Há alguns diálogos comoventes, especialmente quando Jenny luta com as escolhas de sua vida e suas conseqüências. Mas, através de tudo, vemos que este casal conscientemente escolhe um ao outro, escolhe sua família – incluindo o seu cachorro louco.
A narração final sobre o papel que um cachorro pode desempenhar em uma família e em uma vida vai fazer todos os donos de animais domésticos da platéia chorar abertamente. Eu nunca tive um cachorro e chorei. Os produtores foram espertos ao lançar Marley e Eu no natal. É uma experiência de diversão cinematográfica da Currier e Ives para a família toda, que deixará você querendo abraçar os seus pais e avós – e louco para voltar pra casa e abraçar o seu próprio Marley, ou Rover, ou Rex, percebendo que mesmo o “pior cachorro do mundo” tem a sua maneira própria de aquecer o seu coração e enriquecer a sua vida.